Petróleo: Principal driver de preço deste ano é demanda, segundo este especialista


© Reuters.

*As falas do entrevistado refletem sua visão pessoal e não de seu empregador

Investing.com – A continuidade da crise no Oriente Médio, com guerra entre Israel e Hamas e a escalada de ataques a navios comerciais de rebeldes Houthis, grupo militar e político do Iêmen, vem causando volatilidade nos preços do neste ano. Ainda que o frete tenha ficado mais caro, com transportes mais demorados, a oferta ainda da robusta da commodity não tende a ser um problema a princípio, e o principal driver de preço para este ano tende a ser a demanda, na visão de Heitor Paiva, analista de trading de petróleo na Maersk Oil Trading, na Dinamarca.

Com uma economia chinesa aquém do esperado pelos analistas levando a incertezas sobre a demanda, as margens dos derivados não estão tão altas como em 2022, o que pode fazer com que algumas refinarias possam demorar um pouco mais nas interrupções de oferta, em seu entendimento.

Além de uma tendência de eletrificação da frota, que merece atenção, se o conflito no Oriente Médio apresentar uma escalada e os preços subirem, os receios são de que possíveis complicações inflacionárias possam levar as autoridades monetárias de países desenvolvidos a adiarem cortes nos juros – com o risco de uma reavaliação de analistas sobre as perspectivas de crescimento e, por consequência, da demanda global por petróleo.

Entenda na entrevista exclusiva do Investing.com com o especialista, que já passou pela ED&F Man Capital Markets e Hedgepoint Global Markets.

Investing.com – O presidente da Petrobras (BVMF:) afirmou, em entrevista recente, que há pouco impacto para a companhia da situação do Mar Vermelho. Quem vem sendo mais afetado? Acredita que os riscos são pontuais?

Heitor Paiva – O maior impactado disso hoje talvez seja o diesel que vai para a Europa. Porque desde que iniciaram as sanções para a Rússia, de não poder importar o diesel russo, os europeus estavam comprando muito diesel que vinha da Ásia, principalmente da Índia. Então a Índia deve ter virado o maior exportador de diesel para a Europa esse ano e esse diesel indiano estava indo pelo Canal de Suez, pelo Mar Vermelho.

Agora eles não estão mais podendo fazer isso porque as tripulações dos navios estão receosas de navegar nessas regiões, então estão passando pelo cabo da Boa Esperança e isto está adicionando um tempo de viagem de aproximadamente de 10 a 13 dias em uma rota que demoraria bem menos.

Isso tem feito a oferta de diesel e da gasolina cair relativamente bastante. Estamos vendo os estoques de diesel e de gasolina na Europa muito baixos, e isso é um problema, porque nessa época do ano, há manutenção sazonal de refinarias, tanto na Europa quanto nos Estados Unidos. A oferta de combustível refinado naturalmente já cai sazonalmente falando. Essa disrupção nesse momento é um problema.

Eu particularmente acho que é muito precoce para a gente dizer que isso é um risco de curto prazo, porque a gente já observou, várias tentativas conjuntas dos Estados Unidos, com outras nações da OTAN, visando tentar parar os ataques dos Houtis no canal e elas não tiveram o efeito que foi esperado. Os ataques não deram certo e, por isso, qualquer embarcação que passa lá está vulnerável sim e vai estar até o momento que de fato esses ataques pararem, o que ninguém está esperando que vá acontecer. Na verdade, as notícias só indicam que está tendo uma escalada no Oriente Médio para confrontos que saem da esfera Israel Hamas e vão para uma esfera de confronto mais antiga, como é o caso do Irã com os Estados Unidos. O Oriente Médio do jeito que está hoje, geopoliticamente falando, virou um problema para o mercado de petróleo. Eu não acredito que exista uma solução de curto prazo para esse problema.

Inv.com – Como avalia a participação cooperativa do Brasil na Opep+?

Paiva – Eu sou bastante cético que isso possa trazer algum benefício tanto de médio quanto de longo prazo para o país. O Brasil vinha abrindo o mercado de petróleo de uma forma muito eficiente. Isso cria algumas incertezas, que na verdade, não precisariam existir.

Qual é o princípio de ser juntar a Opep? É ser comandado, seguir regras estabelecidas por um comitê de membros do grupo que define o quanto de volume vai poder colocar no mercado. Isso cria alguma incerteza nos produtores privados a partir do momento em que eles não sabem se, por exemplo, eventualmente o governo vai falar que agora aceita os cortes da Opep e vai impor alguma forma de restringir a produção. Na verdade, não é uma boa coisa para o país.

Falta um pouco de clareza sobre o motivo que levou o país a aceitar essa junção, porque o próprio presidente da Petrobras falou em entrevista recente que o Brasil não vai tomar parte dos cortes da Opep. Então o que que ele vai fazer na Opep? Por que que entrou no fim das contas? Eu sou relativamente cético, então eu acho que o Brasil ficaria melhor fora.

Inv.com – O quanto uma perda de fôlego da China é um fator de risco para a demanda? Quais outros podem ser importantes neste ano?

Paiva – A China realmente é uma questão para olhar com cautela, porque os gargalos que a economia chinesa já vinha enfrentando desde 2021, que são basicamente o enfraquecimento do setor imobiliário, eles não foram de forma alguma superados. Então, sendo o setor imobiliário uma parte significativa da economia chinesa, a continuidade da crise no setor não é um bom sinal e isso se vem se refletindo nos dados de manufatura.

A China é um país é relativamente difícil de analisar do ponto de vista energético porque ele não é um mercado aberto. O governo dá a diretriz de quando comprar para as empresas estatais e privadas. Ele solta essas cotas de importação, que viram demanda no final das contas. Então a demanda está muito ligada à vontade política do governo, mais do que aos dados econômicos de curto prazo, porque o governo chinês tradicionalmente planeja no médio prazo.

É óbvio que uma economia fraca no curto prazo não é um bom sinal, mas não é um fator único e determinante para falar “OK, a China não vai mais participar do mercado, a gente tem que ficar agora pessimista”. Porque queiramos ou não, a China ainda é um ponto de refino muito grande, com mais de 10 milhões de barris sendo refinados por dia. As exportações de diesel e de gasolina chinesas têm aumentado e tem mercado fora. Então a China pode importar petróleo e não consumir internamente, mas exportar esse produto derivado. Então, eu não acho que a China seja uma preocupação tão grande assim no momento.

Ainda olhando para o lado da demanda, acho que neste ano, os principais riscos são relacionados à eletrificação da frota de veículos leves nos países ricos, que impacta a demanda por gasolina. A gente consegue ter indicadores já bastante robustos nesse sentido para os Estados Unidos, isso é uma tendência de médio a longo prazo, mas que os efeitos já são sentidos atualmente.

A questão do Oriente Médio, se sair do controle, e as taxas de frete começarem continuarem a subir de forma forte, talvez a gente veja uma mudança retórica dos bancos centrais em relação à queda da taxa de juros e isso, obviamente, vai fazer com que a expectativa do mercado em relação ao estado da economia piore. Se os bancos centrais começarem a falar sobre uma cautela para cortar juros por um possível ressurgimento da inflação, obviamente, as pessoas vão esperar uma economia mais fraca, globalmente falando, e menos demanda por petróleo. É um risco que que eu acho que não deve ser ignorado, mas do jeito que as coisas estão agora, os preços aumentaram, mas a inflação continua caindo e as economias têm, na verdade, mostrado resultados relativamente fortes.

Inv.com – Como enxerga o comportamento da petrolífera estatal da Arábia Saudita Saudi Aramco (TADAWUL:) após anúncio de interrupção de aumento de capacidade?

Paiva – Isso é mais ligado, obviamente, à vontade política do Reino da Arábia Saudita, do que na verdade questões relacionadas ao mercado. Acredito que, na verdade, eles enxergam que talvez no longo prazo, não seja necessário tanto volume de petróleo, porque outros competidores fora da Opep estão colocando muita oferta. Em um momento em que a Arábia Saudita tem definido que em 2060 busca a neutralidade do carbono, é desafiador.  Tem a questão ambiental ainda embasando uma parte dessa decisão. Além disso, é preciso reforçar que a decisão da Saudi Aramco foi muito repercutida na mídia. Mas acredito que, na verdade, o governo quer evitar um mercado sobreofertado no longo prazo e isso é estratégia comum para os países.

O Biden, mesmo essa semana, tomou uma ação bem parecida, mas a mídia não deu a devida atenção, o que me pareceu bastante equivocado, que foi em relação à restrição de novas concessões de construção de terminais de gás liquefeito nos Estados Unidos. Como os EUA estavam crescendo muito na oferta de gás liquefeito, o governo americano resolveu intervir e falar o que talvez haja adição de muita capacidade no mercado. E para proteger o interesse dos produtores, manter o produto relativamente caro, não quer que haja sobrecapacidade. Obviamente, ele não falou isso, mas usou a desculpa ambiental para a ação. Os governos fazem isso no mercado de energia.

Então eu não vejo essa decisão da Saudi Aramco com maus olhos. Foi uma solução bem pragmática, e os árabes são bem conhecidos por serem pragmáticos no mercado, não ficam com muita balela. Esse só foi um movimento para evitar com que o mercado fique sobreofertado no médio prazo, considerando aumento de produção do Brasil, Guiana, Canadá e Estados Unidos.

Inv.com – O que vai pesar mais nos preços esse ano: restrições na oferta ou preocupações com a demanda?

Paiva – A oferta está muito confortável e é por isso que, de uma forma geral,  eu não ainda estou convencido de que o petróleo tem tanto upside quanto alguns bancos têm colocado. Há uma situação geopoliticamente muito complicada no Oriente Médio, mas olhando a curva futura do petróleo, os preços não estão indicando uma falta de oferta tão grande quanto normalmente estariam numa situação similar, se estivesse acontecido no passado.

Acho que o mercado tem plena consciência de que existe oferta, tem produtores de energia no mercado, com o Brasil, Estados Unidos, principalmente, colocando muito óleo no mercado. Para lado da oferta virar uma preocupação, a situação no Oriente médio teria que sair do controle de uma forma violenta, e relativamente de uma forma bem grande, o que não aconteceu ainda.

Na verdade, o principal driver de preço ainda é a demanda. A gente precisa de confirmações de que a demanda vai ficar forte. A oferta é grande no mercado e a demanda não está muito boa. Há refinarias hoje operando em manutenção, e as margens mesmo dos derivados não estão tão altos assim, como estavam em 2022.

Então, isso pode fazer com que algumas refinarias tomem mais tempo para multar a produção, aproveitem o momento de baixa nas margens para demorar um pouco mais nessas interrupções da oferta.

Existem riscos para essa visão de que, por exemplo, a margem dos produtos derivados vai continuar baixa, margem de refino. A guerra da Ucrânia, por exemplo, não foi embora. A gente está vendo, na verdade, várias notícias de refinarias russas sendo atacadas por drones, que estavam colocando dinheiro no mercado, que inclusive estava indo para o Brasil. Então se o Brasil não importa da Rússia, vai importar do Golfo dos Estados Unidos e estará competindo diretamente com a Europa. É um balanço fino, então a gente está em um mercado balanceado.



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